Está acontecendo hoje, no coração da capital gaúcha, a melhor feira que a cidade possui. Não estou falando da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, a “maior feira do livro a céu aberto da América Latina”, que inaugurou ontem. Estou falando da Feira do Gibi, que acontece todo primeiro sábado do mês no segundo piso do Mercado Público. Bem menos pomposa e glamourosa que a Feira do Livro, mas não menos encantadora.
E para falar sobre ela, tomarei a liberdade de colar aqui um texto emocionado que redigi em maio de 2006, quando visitei a Feira pela segunda vez munida de câmera fotográfica, papel e caneta. Saí de lá feliz e mais pobre. Mais pobre ainda teria ficado se tivesse investido 70 mangos na compra do meu sonho de consumo quadrinístico: a coleção completa de Moonshadow - Um conto de fadas para adultos, de J.M. DeMatteis e Jon J. Muth. Fiquem com a Feira do Gibi por Mauren Veras, redigida em meados de 2006.

Várias revistas do Homem-Aranha
Feira do Gibi, 5 de maio de 2006
Esse ano eu descobri mais um motivo para gostar de morar em Porto Alegre: a Feira do Gibi, que acontece todo primeiro sábado do mês no Mercado Público. Essa feira existe desde 2004, possui cerca de 10 expositores e é promovida pela Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic).
Na Feira do Gibi, é possível encontrar desde raridades, coleções completas, (agradeço àqueles que cheiram suas sensacionais coleções), quadrinhos de faroeste, super-heróis da Marvel, DC, graphic novels (mais difícil), GIBI (Rio Gráfica e Editora), Asterix, Tintin, pilhas de Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, revista Animal, eróticos, Turma da Mônica, O Bicho, Charlie Brown, Hagar, Flash Gordon (inclusive edições de luxo), Spirit (delícia!), fotonovela, O Cruzeiro, Grande Hotel, etc (estas últimas não se enquadrando no gênero, mas ainda assim artigo de colecionadores).

Milo Manara: o alquimista das musas de la bande dessiné
Duas vezes por ano a feira realiza uma edição que dura uma semana. Desde que descobri este tesouro no coração da cidade, todo mês eu bato ponto e compro nem que seja uma revista só, além do mais, preços existem para TODOS os bolsos, carteiras, bolsas, pochetes e mochilas. Já comprei revista de 5 pilas, como Snoopy e Charlie Brown. Paguei 10 pilas por Spirit, Dundum, Animal, O Bicho, Olho Mágico (muito boa, acho que desconhecida do público em geral: metade dela é de quadrinistas gaúchos e a outra metade de argentinos) e GIBI. Dei 15 pilas por um Almanaque Gibi Nostalgia nº 6 (com histórias do hilário Pafúncio, Agente Secreto X-9, Brucutu, Little Orphan Annie, Dick Tracy e velharias deste naipe). Também já paguei 20 pilas por uma outra edição da Gibi, que comprei, confesso, menos pelo conteúdo do que pela vaidade de possuir uma revista tão antiga: data de 1947. Da última vez deixei de comprar a coleção completa do Moonshadow (John Marc DeMatteis, Jon J. Muth) porque estava 70 mangos e… Bem, meu bolso de Oséias não comporta esse tipo de extravagância. Meu amigo e ex-fabicano Bituca me emprestou a coleção dele há uns 3 anos e eu pirei total com a história e a arte em aquarela. Foi das coisas mais lindas que eu já li em termos de história em quadrinhos e eu definitivamente precisava possuir aquela coleção. Como boa turca, barganhei. O guri da banca se fez de salame mas disse que segurava a coleção até sábado pra mim (era quinta-feira de uma semana inteira de feira, que acabaria no sábado). Fui embora com a Dundum e a Olho Mágico embaixo do braço, mais palatáveis a minha miserável condição.
Voltei na sexta-feira com a intenção de fazer umas fotos do evento para ilustrar esse texto vagabundo e, oras, dar uma última namorada no Moonshadow. Eu já sabia que não ia gastar aquela grana e queria dar adeus ao pacotinho que repousava em cima de uma pilha de revistas do Hellboy. Levei meu mp3 player para gravar entrevistas e introduzi o assunto dizendo que era “um trabalho para a faculdade”. Na banca do Paulo Tortorelli (o carinha do Moonshadow), logo avisei que ele podia vender a coleção, que eu não teria grana mesmo, lamentavelmente. Conversei com ele mais um pouco e ele me disse que o pai dele, de mesmo nome, mais dois sujeitos, o seu Wanderlei e o Moacir, que eram os “cabeças” da feira. O papo rendeu mesmo foi com o seu Wanderlei que não me deixava ir embora, pois contou quase sua vida inteira. Pedi pra ele posar pra mim com as revistas que ele mais curtia da banca dele e ele pegou a Gibi e o Spirit (fotos perdidas, don’t ask). Ele me contou que em sua pobre infância fazia de tudo para economizar e ganhar uns trocados para comprar gibi. Ele e os amigos. Mas falou sem afetação, com muita simplicidade. Depois que cada um lia a sua revista trocavam entre si. Perguntei qual personagem ele mais gostava e ele lançou mão de uma revistinha bem carcomida do Brucutu (1933, Vincent T. Hamlin), e começou a falar que aquele havia sido o primeiro personagem pré-histórico das histórias em quadrinhos (serviu de inspiração para o Maurício de Souza criar o Piteco), que gostava da linguagem, que era simples e divertia. Não eram como os atuais quadrinhos, cheios de violência e sexo.
Quando perguntado sobre a paixão por gibis, Wanderley falou sobre a magia de se imaginar em outros lugares, outros tempos. Acrescentou que quando o homem chegou à lua, aquilo, para ele, não teve impacto algum, parecia fato corriqueiro, pois no universo dos gibis ao qual estava habituado, ele já tinha passado pela lua, por outros planetas, lugares e épocas, só possíveis através do fantástico mundo das histórias em quadrinhos e personagens como Flash Gordon. Ele falou comigo de uma forma singela e nostálgica. A banca do seu Wanderlei é minha preferida, sempre que vou à Feira do Gibi deixo uns cobres pra ele e saio contente com meus gibis.
Quando eu estava saindo da feira, o guri da banca do Moonshadow me alcançou e perguntou se eu realmente queria MUITO mesmo a coleção. Respondi “óbvio”! Ele me perguntou se eu tinha Orkut ou msn para o caso de, não havendo compradores, podermos negociar. Antes de responder que não, não tenho orkut e perguntar na cara dura ‘tu tá me cantando, tchê’? pensei que é praticamente uma falta de identidade social/digital uma pessoa não fazer parte dessa merda desse Orkut (update: voltei pro Orkut ano passado). Não perguntei se ele estava me cantando e dei meu contato do msn. Foi uma decisão acertada: descobri que, de fato, não era cantada e que o Moonshadow não foi vendido. Quem sabe na próxima feira eu tenha o bolso mais recheado e possa, enfim, comprar a coleção. Caso contrário, também não vou ficar triste em adquirir um Charlie Brown circa 1975 por 5 pilas na banca do seu Wanderlei. Que puxa!
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Depois que publiquei este texto, um amigo que leu tanto se compadeceu da minha dor de muito querer a coleção do Moonshadow que me deu o exemplar encadernado (em brochura) dele. Obrigada mais uma vez, Firpão!

























